Alan Bezerra Por algumas pesadas e doídas razões, essa semana ficará para sempre marcada em minha vida.
Não vou dizer os motivos, claro, mas o que ambas as coisas que aconteceram me fizeram lidar novamente com a pior sensação que uma pessoa pode ter: frustração e imobilidade.
Se eu não tivesse que fazer avaliação de faixa e pudesse estourar em faltas na facul, eu pegaria meu bonézinho da BubbaGump e saíria por aí, andando.
Se eu bebesse, estava perdido.
Nunca teria imaginado que voltaria a sentir essas coisas, não em menor ou maior escala, mas de forma diferente.
Por isso mandei os vídeos de manhã.
O que eu estou passando agora é bem parecido com o que aconteceu comigo nos dois casos.
A perda do Mundial de Clubes e o Rebaixamento.
Ah, lá vem o Alan envolver o Palmeiras nas coisas.
Desculpe, gente.
Não dá. O Palmeiras não é só o time para qual eu torço, assim como minha mãe não é só a mulher que me pôs no mundo, ou os meus amigos não são apenas pessoas que me aguentam durante todos esses anos.
Eu mereço todos os parabéns do mundo no meu aniversário, já que, podem ter certeza, não é nada fácil conviver comigo mesmo.
Mas eu sei que sair andando não vai resolver nada. Nem ficar reclamando.
O calor te faz mal porque você desiste de lutar contra ele. Devemos lutar contra o calor!!!
Assim, você vive mais feliz.
Vamos do começo.
Porque o Palmeiras:
Porque o Palmeiras é início, meio, fim, sobrenome, metáfora, caricatura, tudo o que sou.
O Palmeiras me acolhe, me levanta.
O Palmeiras me dá a rumo a ser seguido. Me dá a bandeira chamada São Marcos para usar de exemplo. Que joga de peito e de punho aberto, com força e com placa no braço, iluminando a meta e o meu caminho verde. Me dá um torcedor-exemplo-ídolo Mauro Beting, que me fez me seguir por um caminho longo e tortuoso, mas extremamente recompensador e divertido. Me dá um exemplo supremo, o objetivo e exemplo final, Joelmir Beting, o maior jornalista do Brasil.
O Palmeiras é tudo o que sou a mais tempo. O Palmeiras foi tudo o que tive durante um certo tempo. Quando pareceu que o mundo me virou as costas, me deixando para trás. Mas era só ver o Palmeiras me carregando para torcer por ele, mostrando que, apesar de tudo e todos, eu ainda era um daqueles que cantam e vibram por nosso alviverde inteio.
E nada mais Alan que usar o Palmeiras como exemplo. Se bem que nada é mais Palmeiras que acolher um torcedor em um momento de dificuldade, sabendo quando é o melhor momento para vencer.
Em 1999, o maior sonho da história da Sociedade Esportiva Palmeiras se concretizou. Ganhamos a Libertadores da América e fomos para o Mundial de Clubes, em dezembro.
Era a realização do Projeto Tokyo. O Palestra estava rumo a tokyo (daí vem o nome do blog).
Meu time do coração, que eu cresci vendo jogando no interior de São Paulo e no Brasil, aos domingos e sábados e quartas e quintas, iria jogar de manhã. Do outro lado do mundo. Contra um time inglês, o Manchester United.
Em um campeonato, a chance mais provável é que o time perca. Sem levar em consideração a força de cada equipe, as chances de cada time ser campeão são de 1 em 32, na Copa, e em 20, no Brasileirão.
Mas no Mundial de Clubes, não. Na época, era jogo único.
Era meio-a-meio. 50% de chance de ganharmos a Terra.
O Palmeiras se preparou da melhor forma que pôde para o jogo mais importante de sua história, chegando com cinco dias de antecedência no Japão. O United chegou na véspera do confronto.
Os europeus não valorizavam muito essa conquista. Bem diferente de nós, que considera a conquista do Mundial de Clubes algo tão importante quanto a conquista do Mundial de Clubes.
Era o jogo para o meu Palmeiras ser o melhor e maior do Mundo.
E foi o jogo para o Palmeiras ser o maior e melhor do mundo. Mandamos na partida, e em muito mais.
Não acompanhei pela tv a final do Mundial de Clubes de 1999, disputada no Estádio Nacional, em Tokyo, às 08h45 do dia 30/11.
Eu estava na quarta série. Estudava de manhã, e tinha prova de ciências no dia. Minha mãe teve que me ameaçar de espancamento em via pública com cabo de vassoura para que eu pudesse ir para a escola.
Tive que ir, na maior má vontade do mundo.
Escutei os fogos do gol do jogo, ainda no primeiro tempo. Rezando para ser do Palmeiras. Aquela foi a única vez que eu atrapalhei uma aula de propósito, implorando para a professora me deixar sair da sala para saber quanto estava a partida.
Consegui ser liberado quinze minutos antes da hora do recreio e fui atrás de alguém para saber qual era o resultado. Por sorte, a tia da merenda estava com o rádio ligado na Jovem Pan AM. Quem narrava era José Silvério.
O Manchester estava ganhando o jogo por 1 x 0.
Mas quem estava jogando para ganhar era o Palmeiras. Muito superior em campo e nas arquibancadas. O recreio só durou quinze minutos, o tempo do intervalo. Tinha que subir para a aula.
Mas não tinha como. O Palmeiras estava perdendo a final do Mundial de Clubes. Meu time precisava de mim. Existem momentos que o bom senso deve ser mandado para o espaço. Naquela hora, torcer para o Palmeiras era a coisa mais importante da minha vida, eu tinha que ficar ali. E fiquei.
Me recusei a sair de frente da cozinha. Bati de frente com a inspetora, a professora e a diretora, querendo saber o motivo da paralização da escola.
Graças a minha decisão, mais de 300 alunos ficaram no pátio, os que estavam ao meu redor calados, escutando a narração.
O Palmeiras era muito melhor, merecia fazer o gol. E fez.
Alex marcou de cabeça, mas o bandeirinha anulou o gol legal do camisa 10 palestrino. A explosão no pátio transformou-se em xingos dos mais diversos.
O medo de ser derrotado foi sendo repelido pelo desespero de escutar cada gol que insistiu em não entrar naquele dia.
Até o instante que o juiz apontou o centro do gramado e decretou o fim da partida.
O Manchester United era Campeão do Mundo.
A tia da merenda pegou o rádio, desligou e levou para dentro da cozinha. Eu fiquei meia hora sentado, no mesmo lugar, imóvel, sem ação. Tive que ser praticamente carregado pela professora e por alguns colegas de turma.
Fui fazer a prova. Eram quatro questões. Só consegui responder uma.
Tinha que voltar para casa.
Vi pela tv os melhores momentos da partida. E vi o lance mais dolorido de ver e lembrar de todos.
A única chance de gol do Manchester, quando Ryan Giggs cruzou a bola, e ela passou a meros três, dois centímetros da mão direita de nosso goleiro-pavilhão, e Roy Keane fez o único gol da partida.
Marcos havia falhado. No jogo mais importante da história da Sociedade Palmeiras.
Poderíamos sim ter ficado com raiva dele, mas não dava.
Se estávamos ali, era por causa dele. Ele podia errar a hora que quisesse e acontecesse o erro. Uma pessoa como o Marcos, que fez e faz e vai fazer e representar tanto para nós para sempre, podia errar. A culpa não foi dele, por mais que ele, São Marcantemente, admitesse a culpa inexistente da perda do Mundial de Clubes.
Olhando os melhores momentos, dava desespero ver que todas as melhores chances de gol foram do Palmeiras. A bola, por alguma razão desconhecida, não quis entrar.
Mesmo jogando melhor, fazendo tudo certo, se preparando desde muito tempo, considerando a partida como a mais importante da história, o que de fato era, não
conseguimos ser Campeões do Mundo.
Aquilo doeu demais. O Projeto Tokyo havia chegado ao fim. E meu time havia parado na última etapa.
Até hoje, quando vejo o gol de Roy Keane, aquela imagem do fim da partida na escola volta a cabeça, junto com aquele vazio que foi o restante daquela semana.
Eu não conseguia nem comer, muito menos dormir.
Três anos depois:
Desde o dia 06/06/00, a perda do Mundial de Clubes foi superada.
Em 2002, o Palmeiras passou por algo que eu nunca havia presenciado: eu cresci vendo meu time ser multicampeão, com a gloriosa Era Parmalat, e os títulos Brasileiros de 93/94, o Rio São Paulo de 93 e 00, os Paulistas de 93/94 e o trem-bola de 96, a Copa do Brasil em 98, a Libertadores em 99, a Copa do Campeões em 00 e a Mercosul em 98.
Nunca havia presenciado o sofrimento do rebaixamento.
Enquanto a perda de título e eliminação acontece de uma vez, o descenso é algo longo, dolorido, doído. Se arrasta por longos meses, em um processo assassino.
A campanha do Palmeiras era horrível. Éramos alvos de piada, de chacota.
No primeiro momento, a minha tônica era de incredulidade: não íamos cair, claro que não. Ainda faltam muitos jogos, o Palmeiras não vai ser rebaixado.
O tempo e os meses foram passando, se prolongando, os jogos passando e nada de saírmos daquela situação insuportável.
Depois, veio a revolta. A torcida mingou do Palestra, graças aos vários vexames e derrotas seguidas.
Por fim, veio aquilo que me tornou um palmeirense de verdade.
A quatro jogos do fim, o Palmeiras precisava de 11 pontos em 12 disputados. Três vitórias em quatro jogos e dois empates. Para um time que havia ganho cinco jogos em vinte cinco disputados.
Mas ainda dava. Iríamos conseguir as vitórias para não depender de ninguém na luta contra o rebaixamento.
Perdemos no Rio, 1 x 0 para o Vasco. Ganhamos no Rio, 0 x 3 contra o Fluminense.
Agora, era o Flamengo em casa.
A torcida lotou o Palestra para acompanhar o jogo mais importante da história do Palmeiras. Uma vitória nos tiraria da zona de rebaixamento, faltando uma rodada para o término da competição.
Poucas vezes eu vi a torcida palestrina empurrar tanto o Palmeiras. A festa foi grande no Palestra Itália lindo e tomado pela esperança vestindo verde e branco.
Principalmente quando conseguimos fazer 1 x 0. Estávamos nos livrando da segunda dos infernos.
Para tudo havia um jeito, assim como deu em 93, na lua cheia do Dia dos Namorados, quando Evair fez José Silvério soltar a frase que está para sempre marcado no coração do Palestra e nos muros do Palestra: "E agora, eu vou soltar a minha voz!!!", para narrar do gol de pênalti que tirou o Palmeiras dos Anos de Chumbo, pôs um fim na ditadura do vice e do quase, acabou com o jejum de 17 anos sem título em verde-e-branco. E fez o meu pai, chorando demais, me pegar no colo para comemorar o gol do título do Palmeiras. E me mostrou o quão é bom ser Palestra, e pintou minha vida para sempre de verde.
Assim como deu em 99, quando estávamos todos na meta iluminada de São Marcos, orando para que ele nos agraciasse com mais um milagre, defendendo o pênalti de Zapata. Ali deu certo, quando todos, aos gritos "de fora, de fora, de fora" jogaram para a fora a cobrança adversária e deixou no Palestra a Libertadores de 99.
Assim como deu em 00, quando, de punho aberto, São Marcos defendeu a cobrança de Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians, e protagonizou o maior momento da Sociedade Esportiva Palmeiras.
Para tudo havia dando um jeito até os 33 do segundo tempo.
Algum jogador do Flamengo deu passe perfeito para Liédson. O rubronegro ficou na cara do gol, e deixou o Palmeiras na beira do precipício.
O goleiro Sérgio (Marcos estava machucado. Tinha se estourado, como sempre faz, tentando salvar o Palmeiras do rebaixamento) saiu do gol de forma desesperada tentando parar o adversário. Como todos os seres humanos fariam quando uma tragédia estava prestes a acontecer. Liédson passou por Sérgio e marcou o gol de misericórdia.
Eu estava em casa, sofrendo pelo rádio, quando percebi que tudo estava quieto.
Os repórteres de campo (futuros colegas de profissão, se Deus quiser) começaram a falar que nunca haviam presenciado algo assim.
Quase 30 mil pessoas em silêncio. A torcida do Palmeiras, conhecida por ser muito corneteira e insuportável e exigente estava calada. Nós xingamos e elogiamos com a mesma força ao mesmo tempo. Não é algo que se pode explicar. Quem não é Palmeiras jamais saberá o que é isso.
O Flamengo passou a dominar o jogo. E, ou por pena ou por respeito, parou de atacar e começou a tocar a bola.
O Palmeiras parou. Entrou em parafuso, em desespero, estava mal. Em casa, começei a chorar o descenso que se mostrava irremediável e incomprensível.
Até aos 43, a torcida presente no Palestra representou os 14 milhões espalhados pelo mundo. E cantaram, todos, em uma só voz:
Quando surge o alviverde imponente
No gramado em que a luta o aguarda
Sabe bem o que vem pela frente
Que a dureza do prélio não tarda
E o Palmeiras no ardor da partida
Transformando a lealdade em padrão
Sabe sempre levar de vencida e provar
Que de fato é campeão
Defesa que ninguém passa
Linha atacante de raça
Torcida que canta e vibra
Por nosso alviverde inteio
Que sabe ser brasileiro
Ostentando a sua fibra
Amém.
Ninguém arredou o pé do Palestra. E demos as mãos para erguer o Palmeiras no momento que ele mais precisou.
Tinhámos que ganhar do Vitória, em Salvador, e torcer para a Portuguesa, o Sport e o Internacional perdessem seus jogos.
As chances disso acontecer eram de 3%.
O Palmeiras tinha 97% de chance de ser rebaixado.
"Número para mim é papo furado. Não tem essa de número, estatística.
Quando perdi do Grêmio, no ano passado, me deram 1% de chance de ser campeão. E eu fui campeão mesmo assim.
Essa coisa de número, estatística, é tudo conversinha.
Meu número é o Náutico na segunda-feira.
Isso aqui é trabalho, meu filho"
Estava na casa do meu tio, em Osasco. Acho que não tinha lugar menos pior para estar, já que Osasco é minha segunda casa. E por motivos diversos e indigestos, o meu primeiro e único lar.
Perdemos de 4 x 3 para o Vitória.
Sofremos a derrota mais vergonhosa da nossa história.
O tetracampeão Palmeiras não disputaria a Série A em 2003, a primeira dos pontos corridos, com 46 rodadas.
Estaríamos na Segunda Divisão, com vinte times. Turno único, depois os dois quadrangulares estranguladores para decidir que eram os dois times que subiriam.
Foi terrível ver o Palmeiras naquela situação. E foi pior quando, em maio do ano seguinte, liguei o rádio de casa em um badalado e festivo sábado a noite, para escutar o primeiro jogo da nossa via crucis Brasil à dentro, Brasilense 2 x 2 Palmeiras.
Que terminou na redentora vitória de virada e da vida sobre o Sport por 2 x 1, no histórico jogo da libertação disputado no Gigante do Agreste, em Garanhús, interior do Pernambuco.
O que estou passando e sentindo agora eu só tinha passado nessas duas situações.
Está difícil.
Mas vou me erguer.
E iluminar de verde o meu caminho.
Para que, futuramente, possa relatar a vocês a minha vitória da virada e da vida.
E sempre, como sempre, e para sempre:
De pé. E de verde.