Alan Bezerra
Dessa vez, eu não pensei em nada para o título. Não por preguiça e nem por moleza, mas que não consegui elaborar nenhum nome ou frase que melhor represente o que foi aquele dia.
Não poderia colocar que foi o momento mais feliz da história do Palmeiras, porque não foi. Infelizmente, a Libertadores de 99 foi o maior título da história do meu clube de coração e de alma. Aquela derrota para o Manchester United, na decisão do Mundial de Clubes do mesmo ano, ainda dói. Era para ser nosso, era para ser (essa sim) a maior conquista da nossa história, mas tudo bem. Para tudo há um jeito
E não foi o momento mais feliz de todos os palestrinos em todos os tempos graças ao que aconteceu no dia 06 de junho de 2000.
Eu me lembro muito bem daquela Libertadores. Por ser mais novo, o tempo que eu tinha para se dedicar ao Palmeiras era muito maior. Mas isso não significa muita coisa, vendo agora. Creio que hoje sou, no mínimo, três vezes mais palmeirense do que era em 1999 (graças ao rebaixamento, ao título paulista do ano passado e essa surreal Libertadores 09).
Ainda sim, eu não consigo me lembrar de nada do que fiz naquele dia. Certamente, eu fui a escola durante a manhã e sei lá o que fiquei fazendo durante a tarde. Só tenho um resquício de memória daquela quarta-feira: na hora da saída da escola, eu e meus colegas palmeirenses nos cumprimentamos e falamos que seríamos campeões.
No mais, nada.
Só me recordo da hora da final, quando estava parado em frente a antiga tv que meu pai tinha, na sala da casa dele. Eu estava enrolado com a minha toalha-bandeira do Palmeiras e vestido com a camisa que hoje pertence a minha irmã.
Apesar das poucas lembranças, eu nunca vou esquecer a quantidade de pessoas que eu vi naqueles dias que estavam vestidas da mesma forma que eu.
Durante a final da Libertadores de 1999, pela primeira vez eu percebi o real tamanho que a Sociedade Esportiva Palmeiras possui. E o melhor, o tamanho da sua torcida.
Quando Evair fez o José Silvério soltar a voz, naquela linda noite de lua cheia do Dia dos Namorados, em 12 de junho de 1993, data na qual o Palmeiras pôs fim no maldito período dos Anos de Chumbo de 17 anos sem título, eu tinha cinco anos de idade.
Meu mundo e acho que todas as crianças com cinco anos é bem pequeno. Ficava restrito a minha casa, meus parentes próximos e meus colegas que brincavam comigo. Eu nem ia para a escola, entrei no prezinho em 94.
Ou seja, eu não conhecia nada do mundo. E isso não quer dizer que hoje eu conheça, longe disso, mas sei um pouco mais do que sabia quando tinha cinco anos. Mas, com 11 anos, eu tinha uma visão de mundo um pouquinho maior.
Eu ia para a escola e ficava jogando bola na rua da casa do meu pai. Pensando agora, a única diferença era a que eu ia para a escola. E mais uma: o fato de eu me lembrar perfeitamente das matérias e reportagens acerca da final.
A capa do jornal Agora SP de uma década atrás, 15 de junho de 1999, trazia os seguintes dizeres: "As armas do Palmeiras: casa cheia e força máxima no ataque".
Mas o mais impactante para mim foi a foto. Perto do Palestra Itália existem trocentos prédios, e o fotógrafo escolheu o melhor deles para fazer a foto. Cerca de 40 mil pessoas estavam não me pergunte como ocupando a Rua Turiassú e seus arredores. Só que lá não cabem 40 mil pessoas. O trânsito da Avenida Francisco Matarazzo ficou terrível. E um detalhe: eram 40 mil pessoas tentando comprar ingresso para um jogo no estádio que, na época, comportava 33 mil torcedores.
Aquela cena do mar verde e branco me marcou muito.
Sobre o jogo em si, me lembro que eu estava absurdamente nervoso. Mas duvido muito que tenha ficado tão tenso quanto fiquei esse ano, quando o Palmeiras reescreveu a minha história com as vitórias marcantes diante do Sport, do Colo-Colo e novamente contra o Sport, pela Libertadores.
É fato: quanto mais velho você fica, mais torcedor você se torna. Agora eu entendo porque o Joelmir Beting não acompanha a imprensa esportiva após uma derrota do Palmeiras.
A maior lembrança daquele jogo foram as cobranças de pênalti.
E o quão alto eu xinguei o Universo por causa da cobrança no travessão de Zinho e o desespero que meu deu na hora. Mas não dava tempo para ficar abatido. Outras cobranças viriam. E elas vieram, e nada do Deportivo Cáli errar um chute. Ou Sua Santidade Marcos operar mais outro milagre.
Mas a abençoada trave esquerda do gol da ferradura fez o milagre que o nosso santo com a camisa 12 não precisou fazer. Depois de desabafar que nem um torcedor que estava a duas cobranças do maior título da história do time que é tudo o ele é, Euller deslocou o goleiro Dudamel, marcou o quarto gol alviverde, virou a decisão, e me fez tremer como poucas vezes tremi até agora.
Na hora, me ajoelhei e começei a engrossar o coro "Fora, Fora, Fora, Fora" para a cobrança de Zapata.
Esses segundos estão nitidamente gravados na minha vida. E não por causa das incontáveis vezes que eu reassiti essa decisão. Me lembro com detalhes daquele instante, naquele momento, com aquela C(a)NTP (Condições aNormais de Temperatura e Pressão) de uma decisão de Libertadores nos pênaltis.
Fiquei sem ação quando vi que São Marcos pulou para o lado contrário da cobrança. Só fui voltar a viver quando vi nosso goleiro se levantando, a torcida ao fundo da gol pulando e quando percebi que a bola tinha ido para fora.
Palmeiras - Campeão da Libertadores de 1999.
Eu corri pela casa, saí gritando na garagem, parei na frente da tv para ver a comemoração no nosso sagrado chiqueiro a entrega do troféu. Falei com o meu pai, que estava trabalhando na hora. Melhor dizendo, tentei falar com meu pai, já que ele chorava compulsivamente.
No dia seguinte, fui para a escola com a camisa do Palmeiras. Era proibido ir com camisa de time, mas que se dane. Não estava ligando para nada. Passei na banca de jornal, comprei o pôster e alguns jornais que tenho até hoje e guardarei para o todo o sempre, vi todas as matérias possíveis, assiti todos os jornais e programas esportivos que eu consegui.
Nós podíamos fazer o que quísessemos. Éramos os Reis da América.
Campeões da Libertadores.
Agora, dez anos depois, o Palmeiras está nessa competição tão importante e marcante.
Uma nova geração de palestrinos está aí. A molecada de sete a 16 anos que não viu ou não se lembra perfeitamente do que foi aquele 16 de junho de 1999. Está na hora deles viverem isso também.
Por eles, e por nós, claro, o Palmeiras pode chegar ao bi da Libertadores, uma década depois da primeira conquista.
E estava lá. E estarei aqui.
Sempre de pé. E de verde e branco. E um punhado vermelho.
Do Palmeiras que tem tudo para ser Campeão da Libertadores de 2009.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
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