quarta-feira, 5 de agosto de 2009

A Copa do Mundo é nossa

Alan Bezerra

A Copa das Confederações me surpreendeu em muitos aspectos. E me deixou, digamos, receoso em um.

Os pontos positivos foram a infra-estrutura apresentada na África do Sul, que superou as expectativas de muita gente, a receptividade dos torcedores sul-africanos, com suas barulhentas vuvuzelas (aquelas cornetas que existiam aos montes nos estádios) e a participação de duas seleções.

A África do Sul de Joel Santana, que deu muito trabalho para o Brasil nas semifinais. Se não fosse aquela patada de Daniel Alves aos 42 do segundo tempo...

E os EUA, que passaram pela favorita Espanha nas semis e abriu 2 x 0 no Brasil na final, apresentando um futebol muito melhor do que aquele que costumeiramente o pessoal do Soccer traz à campo

Mas

A próxima Copa da Confederações já tem data e local definido.

Brasil, 2013.

Falta pouquíssimo tempo.

O que era para ser algo bom, tornou-se algo a ser pensado com maior seriedade. Já estamos muito atrasados para as obras da Copa 2014. Claro, vai dar tempo, vai dar tudo certo. Aos trancos e barrancos, na manha e na marra. Mas vai.

No Brasil, assim como na África do Sul, a Copa do Mundo servirá para outros propósitos, muito além do esportivo.

Há cerca de 15 anos, a FIFA dediciu criar o rodízio de continentes, para tirar a Copa do Mundo do eixo Europa-América que predominou desde o primeiro Mundial, Uruguai-30.

É por essa razão que o mundial de 2010 vai acontecer na África do Sul (que sofreu concorrência de Marrocos-Tunísia e Egito) e em 2014 receberemos o maior evento socio-político-economico-cultural-esportivo-profissional-motivacional da humanidade. Um detalhe interessante é que o Brasil não sofreu concorrência de ninguém.

Ou seja, não fomos 'escolhidos' para recebermos a Copa. A Copa é que nos foi dada pela FIFA.

Depois de 2014, a eleição para o país-sede da Copa do Mundo volta ao modelo antigo: quem tiver mais infra-estrutura, leva. Tanto que as chances da Inglaterra sediar o mundial de 2018 são enormes. Eles poderiam sediar uma Copa do Mundo hoje, imaginem o que os ingleses podem fazer até lá.

Apesar de todos os quase infindáveis pesares e contras, eu sou sim favorável a realização da Copa do Mundo no Brasil. E posso explicar o porquê disso. Só com uma resalva, em relação as escolha das cidades-sedes e mais uma coisa que eu me lembrei agora.

Para realizar uma Copa do Mundo, é necessária uma infra-estrutura colossal. Rede hoteleira, meios de transporte, segurança. estádios, enfim. Pontos que precisam ser monumentalmente melhorados em nosso país.

Na Alemanha, sede da Copa 06, tudo estava pronto dois anos antes da Copa, exceto a reforma do Olímpico de Berlim, palco da grande final. A Copa das Confederações não serviu para testar nada, ao contrário do que aconteceu na África do Sul e certamente vai acontecer aqui.

É de conhecimento de todos que o Brasil está a anos-luz dos países desenvolvidos. E não digo isso pensando no que infelizmente acontece no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e no Sertão do Piauí, por exemplo.

Não preciso ir muito longe.

Guarulhos, a segunda maior cidade do estado de São Paulo, que fica colada na zona leste paulistana, não possui rede de esgoto. Uma cidade de mais de 1 milhão de habitantes não possui rede de esgotos. Todo o dejeto dessas pessoas caem diretamente no Rio Tietê.

Só agora que as obras para a captação de esgoto terão início na terra natal dos Mamonas Assassinas.

Isso em São Paulo. Imaginem o restante do país.

E ainda querem gastar bilhões com uma Copa do Mundo.

Bem, essa é uma das razões (a maior delas) que eu aprovo a realização da Copa aqui.

O governo brasileiro terá que melhorar muita coisa no nosso país. E podem ter certeza, eles vão melhorar. Até mesmo o futurista trem-bala chegará por aqui. Existe um projeto estimado em 30 bilhões de reais para um trem-bala SP-Rio.

Só que, de acordo com um engenheiro do setor, essa obra não ficará pronta até 2014, devido ao tamanho da mesma. O que é compreensível.

Vocês se recordam do acidente ocorrido no dia 17 de junho de 2007, quando um avião da Tam não conseguiu parar na pista do aeroporto de Congonhas e bateu no prédio-estoque da mesma empresa, matando 199 pessoas?

Então, todas as melhorias possíveis e imagináveis no setor aéreo foram falados e divulgados depois da tragédia. Ampliação da pista de Congonhas, construção de outro aeroporto em São Paulo, mais precisamente em Itapecerica da Serra, maior uso do aeroporto de Campinas, o Viracorpos.

Quase dois anos depois, nada foi feito.

Será que a ANAC, a Infraero, o Ministério da Defesa, o Ministério dos Transportes precisam de outra carnificina para tomar alguma atitude? O número de voos que saem de Congonhas não diminuiu de 07 para cá. Só cresceu. E nada foi feito.

Mas calma, gente. A Copa vem ai e eles vão fazer alguma coisa. Não tenho nenhuma dúvida quanto a isso.

E tem aquela coisa: se uma Copa do Mundo não fizer o Brasil dar aquele up grade tão desejado por todos, mais nada é capaz de fazer. Lembremos de JK, só que ao invés de 50 anos em 5, serão uns 40 anos em 4, já que, no mínimo, 80% das obras terão de estar prontas para a realização da Copa das Confederações.

Junho passado, a FIFA, em um evento realizados nas Bahamas (!!!??), anunciou as cidades que receberão os jogos da Copa:

de baixo do mapa para cima, já que assim não esqueço de nenhuma:

Porto Alegre
Curitiba
São Paulo
Rio de Janeiro
Belo Horizonte
Brasília
Cuiabá
Salvador
Recife
Natal
Fortaleza
Manaus

Minha outra dúvida está nisso:

Cuiabá e Manaus. E até certo ponto, Brasília.

Apesar de ser o maior evento socio-político-economico-cultural-esportivo-profissional-motivacional da humanidade, a Copa do Mundo ainda é um torneio de futebol.

Uma coisa é o New York Yankees investir US$ 1,2 bi na construção de um novo e belíssimo e sensacional estádio de baseball, recém-inaugurado.

Outra coisa é construir em estádio em Cuiabá com capacidade de 45 mil pessoas para a realização de, no máximo, três jogos da Copa.

Enquanto os Yankees são quase que um patrimônio cultural e simbólico dos EUA, Cuiabá não possui nenhum time com grande tradição no futebol brasileiro. Segundo os próprios jornalistas do Mato Grosso, eles sequer possuem um campeonato estadual.

Com tudo isso, para quê construir em estádio de futebol onde praticamente não se pratica futebol?

E a ideia de promover a região não me agrada.

Eu não entendo nada de turismo, marketing, etc. Mas creio que não é necessário construir em estádio para aproveitar a profusão de turistas que virão para cá.

Essa história de Sede do Pantanal ficou muito mal contada. Eles usarão o estádio para fazer o que depois?

É só lembrarmos o que aconteceu com a maioria das obras do Pan 07, realizado no Rio.

Além dos metrôs prometidos que não foram construídos, o que saiu do papel não tem utilidade. Claro, excessões existem.

O estádio Engenhão, usado pelo Botafogo, a Arena Multiuso, onde o time de basquete do Flamengo manda seus jogos (e que fez muita diferença nos playoffs da NBB, diante do Universo Brasília - finalmente, o basquete masculino brasileiro começa a sair do coma oriundo da aposentadoria de Oscar Schmith), e o Complexo Aquático Maria Lenk, que recebe a competição de natação de mesmo nome, que é o antigo Troféu Brasil de Natação.

Mesmo nesses locais, os sinais do desuso começam a surgir.

Recentemente. o Harlem Gloobetroters (maior time de basquete-exibição do mundo), veio ao Brasil para uma turnê. Quando eles foram jogar "contra" o Flamengo, na Arena Multiuso, não havia tabela no ginásio.

O Panamericano estava estimado em 700 mi de reais, e foram gastos 3 bilhões. E não havia tabela no ginásio.

A Copa de 2014 está estimada em 30 bilhões. Seguindo a (i)lógica acima, serão gastos cerca de 130 bilhões de reais.

Não é necessário construir estádio para aproveitar a Copa do Mundo. O Espírito Santo, por exemplo, apresenta uma saída interessante. A prefeitura de Vitória já iniciou o lobby junto à CBF para ser a cidade onde ficará a concentração do Brasil.

Não precisa construir nenhum estádio em Vitória, Serra, Colatina para aproveitar a Copa. O futebol no ES está mal das pernas, literalmente. O campeonato capixaba está sendo (gerundio mesmo, essa é uma ação continuada) decidido nos tribunais. Uma hora a justiça dá o título para o São Mateus, ai o Serra entra com recurso e consegue o título de volta, ai o São Mateus se sente lesado e entra com outro recurso e a coisa continua indefinida.

Em Manaus, a desculpa e o absurdo é um pouco maior.

Manaus, para os olhos do mundo, é a capital da Amazônia (e não do Amazonas, vai entender) e, graças a isso, tem que ser sede da Copa.

Tá, e Belém?

Até onde eu sei, Belém também faz parte da Amazônia e também fica no Brasil.

Porque Manaus, para que Manaus?

Só para construir outro elefante branco que não será utilizado para nada depois?

O maior clássico manaura, Nacional x São Raimundo, levou 200 pessoas ao estádio no ano passado. E eles vão erguer um baita estádio de 55 mil lugares para três jogos.

Enquanto isso, em Belém, Remo x Paysandu arrasta 70 mil pessoas ao Mangueirão todas as vezes que se enfrentam. E eles não vão reformar o estádio para a Copa, em um lugar onde ele será utilizado depois do Mundial.

Brasília foi escolhida porque é a capital do Brasil. E só também.

Goiânia possui muito mais importância no cenário futebolísco brasileiro com seus três grandes clubes, o Goías, o Vila Nova e o Atlético/GO, enquanto Brasília conta com o Brasileirense (do corrupto Luís Estevão - ou ele pensa que nós esquemos disso?) e com o Gama.

Mas, como em Brasília sempre ocorrem convenções e eventos, o estádio será bem utilizado para esses fins.

As outras cidades não, todas possuem times com enorme ou grande ou média relevância no futebol brasileiro. Os estádios serão bem utilizados depois da Copa, além das melhorias que as cidades receberão.

Ah, não sei se todos vocês sabem, mas se a FIFA não aprovar as instalações brasileiras oito meses antes da Copa, ela pode mandar a competição para outro país. No caso, ou a Alemanha ou Inglaterra, certamente.

Esse ponto é pequeno, mas é legal.

O tamanho do Brasil pode atrapalhar e muito algumas seleções. Imaginem o país que for mandado para Manaus? Três dias depois, ele será obrigado a viajar no mínimo 1500 km para fazer o próximo jogo.

Isso vai dar muita discussão.

Uma coisa que estávamos pensando e durante as aulas é onde a Argentina mandará seus jogos.

Pela proximidade, Porto Alegre. Mas, eles são argentinos. E como o assunto é futebol, quanto pior eles estiverem, melhor para nós.

O primeiro jogo deles poderia ser em Manaus (inverno chuvoso e cerca de 27 graus), o segundo em Cuiabá (inverno seco e cerca de 32 graus) e o segundo em Porto Alegre (frio nórdico e úmido, cerca de 5 graus).

Claro, isso é exagero. Mas ilustra bem o trabalho que precisará ser bem pensado e bem feito para realizar uma competição rápida em um país continental como o Brasil.

Mas, no fringir das bolas, creio, torço e rezo para a Copa de 2014 ser um sucesso e conseguir, pelo menos um pouco, apagar a imagem estereotipada e feia que os estrangeiros possuem de nosso país.

Finalmente eles descobrirão que a capital do Brasil não é Buenos Aires...

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