quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Super Dynamo

Alan Bezerra

"Bem, vocês praticam um excelente futebol e nós apreciamos. Só que, agora, no segundo tempo, vocês devem perder. Saibam que a equipe da Luftwaffe jamais foi derrotada, especialmente em território ocupado. Isto é uma ordem. Se vocês não perderem serão mortos". (General Major Erberhardt, das Forças Nazistas de Ocupação)

No primeiro ano da Segunda Guerra Mundial (1939), o governo nazista de Hitler fez um acordo de não-agressão com o líder soviético Stálin. Esse acordo ficou conhecido como Pacto Ribbentrop-Molotov (nome dos representantes alemães e soviéticos que assinaram o acordo em nome de seus países).

Pelas regras do tratado, os alemães se comprometeriam a não invadir as terras da URSS e os soviéticos teriam de não reagir a invasão da Polônia pelas tropas germânicas.

No papel, tudo bonitinho. Mas como na prática a teoria é outra, as tropas nazistas invadiram o que hoje é a Ucrânia (na época território pertencente a União Soviética), em 1941.

A ocupação de Kiev, hoje capital da Ucrânia e na época a terceira maior cidade do estado soviético (só ficando atrás de Moscou e de Petrogrado - hoje São Petersburgo). As terras ucranianas eram o celeiro da União Soviética, devido a imensa qualidade do solo, o mais fértil do mundo. Kiev foi praticamente destruída na invasão.

Graças a essa característa geográfica, o objetivo de Hitler era fazer da Ucrânia o celeiro do império alemão e fazer dos ucranianos (povo de origem eslava) seus escravos.

Fundado no início do século passado, o Dynamo de Kiev era e é o principal time de futebol da Ucrânia, sendo praticamente uma bandeira do país e disparado a equipe que possui a maior torcida. Após o surgimento da URSS, em 1922, o time de Kiev passou a integrar a liga de futebol soviética.

O Dynamo era um dos poucos times fora do hoje é a Rússia que conseguia fazer frente
aos grandes times da época, como o Spartak Moscou e o Torpedo Moscou, conquistando alguns títulos nacionais e várias copas da URSS.

Um dos melhores times da história da URSS (o time campeão da Eurocopa de 60) tiveram por base o time multicampeão do Dynamo de Kiev. Liderados pelo lendário Lev Yashin, o Aranha-Negra, considerado por muitos um dos melhores goleiros de todos os tempos - ao lado do compatriota mais jovem Rinat Daseav e do atual goleiro da Squadra Azzurra Gianluigi Buffon - a União Soviética tinha um baita seleção, mas que sempre levou muito azar nas Copas do Mundo e nunca conquistou um título mundial.


Depois da invasão da União Soviética pela Alemanha, as tropas nazistas decidiram fundar uma liga de futebol para mostrar a supremacia racial e ideológica também nos gramados.

Mais um erro dos nazistas. Eles se esqueceram que em 36, durante as Olimpíadas de Berlim, Hitler colocou quase 200 mil pessoas no imenso estádio Olímpico de Berlim para mostrar que os brancos de olhos azuis eram mais rápidos e mais fortes e que as outras pessoas.

Só que se esqueceram de avisar o americano Jesse Owens. Negro descendente de escravos, Jesse Owens calou o Führer, presente no estádio, ao vencer as provas de 100 e 200 metros da Olimpíada de Berlim.

Com a invasão, as atividades do Dynamo de Kiev foram interrompidas, o mesmo tendo acontecido com outros times soviéticos, já que tudo e todos estavam voltados à Guerra.

Nicolai Trusevich, antigo goleiro do Dynamo e um dono de padaria de Kiev (cujo nome eu não consegui encontrar, Desculpem), decidiram formar um time de futebol e para isso chamaram os jogadores de uma equipe de Moscou, o Lokomotiv que, juntos de outros ex-atletas do Dynamo de Kiev, dão origem a uma nova equipe.

Surge então o FC Start.


A Luftwaffe, o exército nazista, desafiou o Start para uma confronto, que aconteceu no dia 9 de agosto de 1942, em Kiev.

Jamais, em toda a história do futebol, uma partida significou tanto para um povo. Não era só a vitória que estava em jogo, era a resistência de toda uma nação representada pelos jogadores do Start, principalmente para os habitantes de Kiev, que se viam nos jogadores do Dynamo.

Mesmo em condições totalmente desiguais (os jogadores da Luftwaffe estavam em condições físicas muito melhores que os do Start), o desafio foi aceito.

Na virada do intervalo, o Start já vencia o Luftwaffe por 2 x 1, quando o General Major Erberhardt foi no vestiário e fez o discurso citado no primeiro parágrafo.

Mas o jogadores do Start tinham consciência do que representava para o ucranianos aquela vitória. Sabiam que aquele poderia ser o maior símbolo de resistência para toda uma nação, assolada pela barbárie de guerra. Apesar das ameaças de morte, o Start voltou a campo para o segundo tempo.

O resultado?

Caso algum de vocês forem à Kiev algum dia, dêem uma passada em frente ao estádio Lobanovsky, pertencente ao Dynamo de Kiev, e olhem o monumento que existe lá.

A estátua é uma homenagem aos herois do Start que foram mortos após a goleada por 5 x 1 sobre o Luftwaffe.


O torcedores do Dynamo de Kiev tem um orgulho enorme desses jogadores. E não é para menos.

A palavra Dynamo deriva do latim dynamos, que significa força, poder. E nunca uma equipe mostrou tanta força e tanto poder, a ponto de lutar no campo e vencer na bola um exército invasor, mesmo sob ameaça de morte que foi concretizada.

Super Dynamo!!!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Faltam 40 jogos para o Penta

Alan Bezerra

18/11

23h02

1 x 0 para o Grêmio, gol marcado por Rafael Carioca. Obina e Maurício brigaram entre si na saída do intervalo. Expulsão corretíssima

O Palmeiras está com dois homens a menos

Faltam 45 minutos para o Palestra jogar a vida na disputa pelo título do Campeonato Brasileiro.

Tem que virar o jogo. Contra um time que não perde em casa há 36 partidas, desde setembro do ano passado o Grêmio não é derrotado no Olímpico.

Oremos


23h05

Recomeçou


23h10

O Grêmio domina a partida, joga com tranquilidade e vai enervando o já nervoso Palmeiras

23h15

Idem e vide post acima. Com a diferança de que o time da casa começa a tirar o pé.

23h16

O narrador Téo José recorda a Batalha dos Aflitos. É a esperança que me faz acreditar que ainda tem como virar.

23h20

A valentia dos jogadores alviverdes é impressionante. Diego Souza criou uma ótima chance de gol.

23h25

Pressão gremista. Salvai-nos de uma tragédia ainda maior, São Marcos. Mas o Grêmio não consegue finalizar, só vai chuveirando e beirando perigosamente a defesa verde.

23h30

Máxi Lópes.
Driblou Marcos e rolou para o gol.

2 x 0 para o Grêmio

Vinte minutos para fazermos três gols, com dois a menos e fora de casa. Ainda tem como.

23h35

O Palmeiras está de branco. Mas dói muito ver o verde em campo.

23h40

O Diego Souza joga praticamente sozinho, contando com o apoio heroico de Sandro Silva e a eterna e infindável entrega de Pierre. Ainda bem que temos jogadores assim no time, que estão fazendo o que eu faria se estivesse em campo.

Faltam dez minutos.

23h45

O Grêmio sufoca o Palmeiras na defesa. O time do Palestra Itália não se entrega.

23h49

Acabou


O volante Pierre, uma das maiores bandeiras desse time, saiu chorando do gramado.

A expressão do Marcos na entrevista dentro do campo é desoladora.



O Palmeiras não será mais Campeão Brasileiro. E machuca demais assumir isso. O clima de melancolia é intragável.


Agora é juntar os incontáveis pedaços e garantir a vaga para a Libertadores 10.


O título fica para o ano que vem.

Não foi dessa vez.


Faltam 40 jogos para o Penta



00h00

Outro dia.

O Fluminense virou a semifinal da Sulamericana diante do Cerro Porteño, com dois gols nos acréscimos.

De vergonha no Brasileiro, a um time que não perde há onze jogos, com nove vitórias nesse período e está de volta a uma final de torneio continental. E com grandes chances de não cair para a Série B.

E naquelas coisas inexplicáveis e maravilhosa do mundo, o Fluminense pode vir a enfrentar a LDU na final.

A mesma LDU que tirou o título da Libertadores do Fluminense, em 2008, na derrota mais doída de um time brasileiro na história do torneio.


Apesar de estar vivendo agora uma das maiores decepções que tive como palmeirense em minha vida, quando deixamos o título que estava em nossos pés escapar, ver um time dar essa volta por cima é algo fabuloso.



O Fluminense calou minha boca e mudou minha opinião.


Agora eu também acredito


Obrigado, Fluminense







02h01

Milton Neves e Mauro Beting discutem em alto e bobo som a sonoridade das palavras remela, ranho e chorrilho (coletivo de grãos) no Terceiro Tempo da Rádio Bandeirantes, disparado o melhor programa de rádio de São Paulo.

hehehehe

Eles são geniais.

E tem Rádio Camanducaia daqui a pouco


02h22.

Começou a Camanducaia

"Falando para a cidade, cochichando para o interior..."

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Que Vasco!

Alan Bezerra

Vasco da Gama...

Tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz

Norte sul, Norte sul

Deste Brasil

Tua estrela

Na terra a brilhar

Ilumina o mar

No atletismo és um braço

No remo és imortal

No futebol és um traço

De união

Brasil-Portugal

E o Gigante da Colina voltou da mais longa viagem de sua mais que centenária história.

Com as portas da Primeira Divisão escancaradas por 80 mil vascaínos no Maracanã.

Que seguraram o leme e o prumo do time quando este passava por sua perdição das Tormentas da segunda dos infernos, a transformando no rumo da Boa Esperança. Que saí da rota mas que jamais perde o destino da frota daqueles que compõem a caravela cruz-maltina. Que já tem no uniforme a faixa de campeão. Que vai e volta. Que conquista. Que virada. Que exemplo.

Que Vasco!


Bem-vindo de volta,

Clube de Regatas Vasco da Gama

Os dias em que meu mundo acabou

Alan Bezerra

Por algumas pesadas e doídas razões, essa semana ficará para sempre marcada em minha vida.

Não vou dizer os motivos, claro, mas o que ambas as coisas que aconteceram me fizeram lidar novamente com a pior sensação que uma pessoa pode ter: frustração e imobilidade.

Se eu não tivesse que fazer avaliação de faixa e pudesse estourar em faltas na facul, eu pegaria meu bonézinho da BubbaGump e saíria por aí, andando.
Se eu bebesse, estava perdido.

Nunca teria imaginado que voltaria a sentir essas coisas, não em menor ou maior escala, mas de forma diferente.

Por isso mandei os vídeos de manhã.

O que eu estou passando agora é bem parecido com o que aconteceu comigo nos dois casos.

A perda do Mundial de Clubes e o Rebaixamento.

Ah, lá vem o Alan envolver o Palmeiras nas coisas.

Desculpe, gente.

Não dá. O Palmeiras não é só o time para qual eu torço, assim como minha mãe não é só a mulher que me pôs no mundo, ou os meus amigos não são apenas pessoas que me aguentam durante todos esses anos.

Eu mereço todos os parabéns do mundo no meu aniversário, já que, podem ter certeza, não é nada fácil conviver comigo mesmo.

Mas eu sei que sair andando não vai resolver nada. Nem ficar reclamando.

O calor te faz mal porque você desiste de lutar contra ele. Devemos lutar contra o calor!!!

Assim, você vive mais feliz.

Vamos do começo.

Porque o Palmeiras:

Porque o Palmeiras é início, meio, fim, sobrenome, metáfora, caricatura, tudo o que sou.

O Palmeiras me acolhe, me levanta.

O Palmeiras me dá a rumo a ser seguido. Me dá a bandeira chamada São Marcos para usar de exemplo. Que joga de peito e de punho aberto, com força e com placa no braço, iluminando a meta e o meu caminho verde. Me dá um torcedor-exemplo-ídolo Mauro Beting, que me fez me seguir por um caminho longo e tortuoso, mas extremamente recompensador e divertido. Me dá um exemplo supremo, o objetivo e exemplo final, Joelmir Beting, o maior jornalista do Brasil.

O Palmeiras é tudo o que sou a mais tempo. O Palmeiras foi tudo o que tive durante um certo tempo. Quando pareceu que o mundo me virou as costas, me deixando para trás. Mas era só ver o Palmeiras me carregando para torcer por ele, mostrando que, apesar de tudo e todos, eu ainda era um daqueles que cantam e vibram por nosso alviverde inteio.

E nada mais Alan que usar o Palmeiras como exemplo. Se bem que nada é mais Palmeiras que acolher um torcedor em um momento de dificuldade, sabendo quando é o melhor momento para vencer.

Em 1999, o maior sonho da história da Sociedade Esportiva Palmeiras se concretizou. Ganhamos a Libertadores da América e fomos para o Mundial de Clubes, em dezembro.

Era a realização do Projeto Tokyo. O Palestra estava rumo a tokyo (daí vem o nome do blog).

Meu time do coração, que eu cresci vendo jogando no interior de São Paulo e no Brasil, aos domingos e sábados e quartas e quintas, iria jogar de manhã. Do outro lado do mundo. Contra um time inglês, o Manchester United.

Em um campeonato, a chance mais provável é que o time perca. Sem levar em consideração a força de cada equipe, as chances de cada time ser campeão são de 1 em 32, na Copa, e em 20, no Brasileirão.

Mas no Mundial de Clubes, não. Na época, era jogo único.

Era meio-a-meio. 50% de chance de ganharmos a Terra.

O Palmeiras se preparou da melhor forma que pôde para o jogo mais importante de sua história, chegando com cinco dias de antecedência no Japão. O United chegou na véspera do confronto.

Os europeus não valorizavam muito essa conquista. Bem diferente de nós, que considera a conquista do Mundial de Clubes algo tão importante quanto a conquista do Mundial de Clubes.

Era o jogo para o meu Palmeiras ser o melhor e maior do Mundo.

E foi o jogo para o Palmeiras ser o maior e melhor do mundo. Mandamos na partida, e em muito mais.

Não acompanhei pela tv a final do Mundial de Clubes de 1999, disputada no Estádio Nacional, em Tokyo, às 08h45 do dia 30/11.

Eu estava na quarta série. Estudava de manhã, e tinha prova de ciências no dia. Minha mãe teve que me ameaçar de espancamento em via pública com cabo de vassoura para que eu pudesse ir para a escola.

Tive que ir, na maior má vontade do mundo.

Escutei os fogos do gol do jogo, ainda no primeiro tempo. Rezando para ser do Palmeiras. Aquela foi a única vez que eu atrapalhei uma aula de propósito, implorando para a professora me deixar sair da sala para saber quanto estava a partida.

Consegui ser liberado quinze minutos antes da hora do recreio e fui atrás de alguém para saber qual era o resultado. Por sorte, a tia da merenda estava com o rádio ligado na Jovem Pan AM. Quem narrava era José Silvério.

O Manchester estava ganhando o jogo por 1 x 0.

Mas quem estava jogando para ganhar era o Palmeiras. Muito superior em campo e nas arquibancadas. O recreio só durou quinze minutos, o tempo do intervalo. Tinha que subir para a aula.

Mas não tinha como. O Palmeiras estava perdendo a final do Mundial de Clubes. Meu time precisava de mim. Existem momentos que o bom senso deve ser mandado para o espaço. Naquela hora, torcer para o Palmeiras era a coisa mais importante da minha vida, eu tinha que ficar ali. E fiquei.

Me recusei a sair de frente da cozinha. Bati de frente com a inspetora, a professora e a diretora, querendo saber o motivo da paralização da escola.

Graças a minha decisão, mais de 300 alunos ficaram no pátio, os que estavam ao meu redor calados, escutando a narração.

O Palmeiras era muito melhor, merecia fazer o gol. E fez.

Alex marcou de cabeça, mas o bandeirinha anulou o gol legal do camisa 10 palestrino. A explosão no pátio transformou-se em xingos dos mais diversos.

O medo de ser derrotado foi sendo repelido pelo desespero de escutar cada gol que insistiu em não entrar naquele dia.

Até o instante que o juiz apontou o centro do gramado e decretou o fim da partida.

O Manchester United era Campeão do Mundo.

A tia da merenda pegou o rádio, desligou e levou para dentro da cozinha. Eu fiquei meia hora sentado, no mesmo lugar, imóvel, sem ação. Tive que ser praticamente carregado pela professora e por alguns colegas de turma.

Fui fazer a prova. Eram quatro questões. Só consegui responder uma.

Tinha que voltar para casa.

Vi pela tv os melhores momentos da partida. E vi o lance mais dolorido de ver e lembrar de todos.

A única chance de gol do Manchester, quando Ryan Giggs cruzou a bola, e ela passou a meros três, dois centímetros da mão direita de nosso goleiro-pavilhão, e Roy Keane fez o único gol da partida.

Marcos havia falhado. No jogo mais importante da história da Sociedade Palmeiras.
Poderíamos sim ter ficado com raiva dele, mas não dava.

Se estávamos ali, era por causa dele. Ele podia errar a hora que quisesse e acontecesse o erro. Uma pessoa como o Marcos, que fez e faz e vai fazer e representar tanto para nós para sempre, podia errar. A culpa não foi dele, por mais que ele, São Marcantemente, admitesse a culpa inexistente da perda do Mundial de Clubes.

Olhando os melhores momentos, dava desespero ver que todas as melhores chances de gol foram do Palmeiras. A bola, por alguma razão desconhecida, não quis entrar.

Mesmo jogando melhor, fazendo tudo certo, se preparando desde muito tempo, considerando a partida como a mais importante da história, o que de fato era, não
conseguimos ser Campeões do Mundo.

Aquilo doeu demais. O Projeto Tokyo havia chegado ao fim. E meu time havia parado na última etapa.

Até hoje, quando vejo o gol de Roy Keane, aquela imagem do fim da partida na escola volta a cabeça, junto com aquele vazio que foi o restante daquela semana.
Eu não conseguia nem comer, muito menos dormir.


Três anos depois:

Desde o dia 06/06/00, a perda do Mundial de Clubes foi superada.

Em 2002, o Palmeiras passou por algo que eu nunca havia presenciado: eu cresci vendo meu time ser multicampeão, com a gloriosa Era Parmalat, e os títulos Brasileiros de 93/94, o Rio São Paulo de 93 e 00, os Paulistas de 93/94 e o trem-bola de 96, a Copa do Brasil em 98, a Libertadores em 99, a Copa do Campeões em 00 e a Mercosul em 98.

Nunca havia presenciado o sofrimento do rebaixamento.

Enquanto a perda de título e eliminação acontece de uma vez, o descenso é algo longo, dolorido, doído. Se arrasta por longos meses, em um processo assassino.

A campanha do Palmeiras era horrível. Éramos alvos de piada, de chacota.

No primeiro momento, a minha tônica era de incredulidade: não íamos cair, claro que não. Ainda faltam muitos jogos, o Palmeiras não vai ser rebaixado.

O tempo e os meses foram passando, se prolongando, os jogos passando e nada de saírmos daquela situação insuportável.

Depois, veio a revolta. A torcida mingou do Palestra, graças aos vários vexames e derrotas seguidas.

Por fim, veio aquilo que me tornou um palmeirense de verdade.

A quatro jogos do fim, o Palmeiras precisava de 11 pontos em 12 disputados. Três vitórias em quatro jogos e dois empates. Para um time que havia ganho cinco jogos em vinte cinco disputados.

Mas ainda dava. Iríamos conseguir as vitórias para não depender de ninguém na luta contra o rebaixamento.

Perdemos no Rio, 1 x 0 para o Vasco. Ganhamos no Rio, 0 x 3 contra o Fluminense.

Agora, era o Flamengo em casa.

A torcida lotou o Palestra para acompanhar o jogo mais importante da história do Palmeiras. Uma vitória nos tiraria da zona de rebaixamento, faltando uma rodada para o término da competição.

Poucas vezes eu vi a torcida palestrina empurrar tanto o Palmeiras. A festa foi grande no Palestra Itália lindo e tomado pela esperança vestindo verde e branco.

Principalmente quando conseguimos fazer 1 x 0. Estávamos nos livrando da segunda dos infernos.
Para tudo havia um jeito, assim como deu em 93, na lua cheia do Dia dos Namorados, quando Evair fez José Silvério soltar a frase que está para sempre marcado no coração do Palestra e nos muros do Palestra: "E agora, eu vou soltar a minha voz!!!", para narrar do gol de pênalti que tirou o Palmeiras dos Anos de Chumbo, pôs um fim na ditadura do vice e do quase, acabou com o jejum de 17 anos sem título em verde-e-branco. E fez o meu pai, chorando demais, me pegar no colo para comemorar o gol do título do Palmeiras. E me mostrou o quão é bom ser Palestra, e pintou minha vida para sempre de verde.

Assim como deu em 99, quando estávamos todos na meta iluminada de São Marcos, orando para que ele nos agraciasse com mais um milagre, defendendo o pênalti de Zapata. Ali deu certo, quando todos, aos gritos "de fora, de fora, de fora" jogaram para a fora a cobrança adversária e deixou no Palestra a Libertadores de 99.

Assim como deu em 00, quando, de punho aberto, São Marcos defendeu a cobrança de Marcelinho Carioca, ídolo do Corinthians, e protagonizou o maior momento da Sociedade Esportiva Palmeiras.

Para tudo havia dando um jeito até os 33 do segundo tempo.
Algum jogador do Flamengo deu passe perfeito para Liédson. O rubronegro ficou na cara do gol, e deixou o Palmeiras na beira do precipício.

O goleiro Sérgio (Marcos estava machucado. Tinha se estourado, como sempre faz, tentando salvar o Palmeiras do rebaixamento) saiu do gol de forma desesperada tentando parar o adversário. Como todos os seres humanos fariam quando uma tragédia estava prestes a acontecer. Liédson passou por Sérgio e marcou o gol de misericórdia.

Eu estava em casa, sofrendo pelo rádio, quando percebi que tudo estava quieto.

Os repórteres de campo (futuros colegas de profissão, se Deus quiser) começaram a falar que nunca haviam presenciado algo assim.

Quase 30 mil pessoas em silêncio. A torcida do Palmeiras, conhecida por ser muito corneteira e insuportável e exigente estava calada. Nós xingamos e elogiamos com a mesma força ao mesmo tempo. Não é algo que se pode explicar. Quem não é Palmeiras jamais saberá o que é isso.

O Flamengo passou a dominar o jogo. E, ou por pena ou por respeito, parou de atacar e começou a tocar a bola.

O Palmeiras parou. Entrou em parafuso, em desespero, estava mal. Em casa, começei a chorar o descenso que se mostrava irremediável e incomprensível.

Até aos 43, a torcida presente no Palestra representou os 14 milhões espalhados pelo mundo. E cantaram, todos, em uma só voz:

Quando surge o alviverde imponente
No gramado em que a luta o aguarda

Sabe bem o que vem pela frente
Que a dureza do prélio não tarda

E o Palmeiras no ardor da partida
Transformando a lealdade em padrão

Sabe sempre levar de vencida e provar
Que de fato é campeão

Defesa que ninguém passa
Linha atacante de raça

Torcida que canta e vibra
Por nosso alviverde inteio

Que sabe ser brasileiro
Ostentando a sua fibra


Amém.

Ninguém arredou o pé do Palestra. E demos as mãos para erguer o Palmeiras no momento que ele mais precisou.

Tinhámos que ganhar do Vitória, em Salvador, e torcer para a Portuguesa, o Sport e o Internacional perdessem seus jogos.

As chances disso acontecer eram de 3%.
O Palmeiras tinha 97% de chance de ser rebaixado.

"Número para mim é papo furado. Não tem essa de número, estatística.
Quando perdi do Grêmio, no ano passado, me deram 1% de chance de ser campeão. E eu fui campeão mesmo assim.
Essa coisa de número, estatística, é tudo conversinha.
Meu número é o Náutico na segunda-feira.

Isso aqui é trabalho, meu filho"

Estava na casa do meu tio, em Osasco. Acho que não tinha lugar menos pior para estar, já que Osasco é minha segunda casa. E por motivos diversos e indigestos, o meu primeiro e único lar.

Perdemos de 4 x 3 para o Vitória.

Sofremos a derrota mais vergonhosa da nossa história.

O tetracampeão Palmeiras não disputaria a Série A em 2003, a primeira dos pontos corridos, com 46 rodadas.
Estaríamos na Segunda Divisão, com vinte times. Turno único, depois os dois quadrangulares estranguladores para decidir que eram os dois times que subiriam.

Foi terrível ver o Palmeiras naquela situação. E foi pior quando, em maio do ano seguinte, liguei o rádio de casa em um badalado e festivo sábado a noite, para escutar o primeiro jogo da nossa via crucis Brasil à dentro, Brasilense 2 x 2 Palmeiras.

Que terminou na redentora vitória de virada e da vida sobre o Sport por 2 x 1, no histórico jogo da libertação disputado no Gigante do Agreste, em Garanhús, interior do Pernambuco.


O que estou passando e sentindo agora eu só tinha passado nessas duas situações.


Está difícil.


Mas vou me erguer.
E iluminar de verde o meu caminho.

Para que, futuramente, possa relatar a vocês a minha vitória da virada e da vida.

E sempre, como sempre, e para sempre:


De pé. E de verde.