Por Alan BezerraApesar de ser palmeirense até o último resquício de cosmo, não consigo deixar de torcer para que algumas equipes consigam conquistar títulos e o respeito da mídia e dos outros torcedores.
Atualmente, além da minha admiração enorme pelo Liverpool, pelos motivos que eu já escrevi a respeito anteriormente, outra equipe vem me conquistando: o Barcelona.
Ou diria reconquistando?
Desde que eu era pequeno, acompanhava os jogos do Barça pelo campeonato espanhol, na época em que o Ronaldo jogava por lá, em 96/97. Ou seja, lá se vão 12 anos. Durante um tempo, no início dessa década, o Real Madrid (o arquirrival do Barcelona e que, ao ver mer, faz com ele o maior clássico do planeta, graças a motivos que citarei a frente), com o gênio Zidane, mudou o meu conceito de futebol bem jogado e até certo ponto do sobre o que eu considero algo elegante.
Passaram-se algum tempo, e não fiquei muito encantado com alguma equipe espanhola. Isso até entrar em campo o melhor ataque do mundo.
Em pouco mais de 45 jogos na temporada 08/09 foram marcados 100 gols. O Barcelona estava destruindo os adversários tanto na Liga Espanhola quanto na Champions League.
Diversos jornalistas esportivos afirmaram com alto e bom som que o time da Catalúnia era a melhor do mundo, apesar da merecida badalação (ao meu ver exacerbada) em torno do Manchester United, de Cristiano Ronaldo. Que, segundo a FIFA, é o melhor do mundo.
Mas, segundo a quase totalidade da humanidade, o verdadeiro melhor do mundo é o Messi.
O que o argentino joga é uma grandeza. É coisa de deixar embasbacado, sem palavras e sem marcação. Nem batendo os zagueiros conseguem parar o genial camisa 10 catalão.
Ponto. Cheguei onde pretendia: genial
Eu costumo admirar dois tipos de personalidade e de postura em qualquer coisa existente: a genialidade e o, digamos, espírito operário.
O Barcelona é o maior exemplo hoje no futebol para o que pode ser chamado de genial. Eles não correm em campo, a bola corre por eles. A facilidade que os jogadores do Barça possuem para fazer as coisas é de deixar encantado. Assim como o Real Madrid, dos anos 01/02/03.
Do outro lado, o espírito operário. Poderia citar o Grêmio de 05 para cá, mas aí seria chover na enchente. Mas a base é essa mesmo.
Enquanto o Barcelona encanta, o Grêmio emociona.
E, desde sempre, eu sou um milhão de vezes mais favorável a ficar emocionado do que encantado. A Saga de Hades que o diga.
Resumindo a história: mesmo com seu belíssimo futebol arte-espetáculo, faltava aquela transpiração tão bem vinda.
No sábado passado, ocorreu o super clássico Real Madrid x Barcelona, no estádio Santiago Bernabéu, em Madrid.
Agora, uma rápida explicação. Eu e muita gente considera esse jogo o maior clássico do futebol mundial, por duas razões.
A primeira é que cerca de 82% da população espanhola torce para um dos dois os times.É como se no Brasil 171 milhões de pessoas torcessem para o Flamengo ou para o Corinthians. Ou seja, o país pára, literalmente.
A segunda, é que a Espanha pode ser um país, mas não é uma nação. Eu sei que quase nenhum dos países grandes da Europa pode ser chamado de nação. Acho que só Portugal.
Não é de desconhecimento de ninguém que existem trocentos povos diferentes no Velho Continente, agrupados em alguns países. A Itália por exemplo, da célebre frase de Bento Garibaldi (Criamos a Itália, agora falta criar os italianos), é por isso que não vemos nenhum sabor de pizza à italiana, e sim à napolitana, à calabresa etc.
Mas no país da bota, até onde eu sei, eles se consideram 'italianos', mesmo nascendo na região de Milão ou em Nápoles.Lógico, existe uma rivalidade enorme entre eles, mas ainda é algo controlável.
Na Espanha, não.
Eu não entendo como o país que foi sede da Copa de 82 ainda é um país. Calma, eu explico o que quero dizer.O que chamamos de Espanha é na verdade um agrupamento de três povos: os catalães, os bascos e os, sei lá, chamarei de madrilhenos.
Para citar um exemplo: quando a Espanha foi campeã da EURO 08, Madrid entrou em festa. Enquanto isso, não estava acontecendo nada em Barcelona. E a razão disso era bem simples: a Espanha ganhou a EURO, e não a Catalúnia.
E o que mais representa esse racha é o super clássico Real Madrid x Barcelona, que literalmente divide o país ao meio.
O último Madrid x Barça foi inesquecível.
O Barcelona humilhou o Real Madrid, em pleno Santiago Bernabéu, com um acachapante 6 x 2.
O catalães colocaram os merengues na roda, e tiraram da linha e do sério qualquer um que gosta de futebol. Foi um vareio, um baile encantado guiado pelos pés e pelas jogadas mágicas de Messi.
Isso foi em um sábado. Na quarta-feira passada, o Barcelona entrou em campo para jogar contra o Chelsea, pela semifinal da Champions League.
Era consenso geral de que se o Barcelona jogasse metade do sabe, passaria sem problemas. Exceto pela defesa absurda do time londrino. O Barcelona não conseguiu furar o paredão do ex-time de Felipão. A inspiração acabou.
Será que o Barcelona não conseguiria ir além das suas limitações? Será que a gênios não fariam o que os operários fazem todos os dias?
Para a minha surpresa, quando o zagueiro Abidal foi expulso, o Barcelona mudou sua postura em campo e passou a se entregar de forma magistral. Os jogadores acostumados a dar espetáculo passaram a dar carinho, começaram a correr como todos ou outros que não possuem talento nato.
Além de encantar, o Barcelona passou a me emocionar.
Foi uma verdadeira batalha em Londres.
Durante vinte e dois minutos, o catalães ficaram com um jogador a menos, mas com dez homens a mais em campo.
Eles se lançaram quase de forma suicida ao ataque, já que necessitavam a todo custo do gol de empate. No ataque, tudo bem, e na defesa, melhor ainda. Todos marcavam.
Demorou, mas saiu o gol do time catalão.
Messi fez um jogada alá Messi pela esquerda e rolou para Iniesta, jogador que está a mais de doze anos no Barça. Ele, que nunca foi considerado um craque, mas sempre foi respeitado pela dedicação com a qual vestia a belíssima camisa azul grená, chutou da forma mais simples possível, de bico.
A bola foi no ângulo do goleiraço Pétr Cech.
Os jogadores, os torcedores e até a comissão técnica do treinador Josep Guardiola comemoraram esse gol mais que todos os que foram marcados até aquele momento. E, com razão (ou por paixão mesmo), já que esse gol levou o Barcelona à Roma.
Com um a menos, fora de casa, com um gol quase no final da partida. A identificação com o que ocorreu a menos de dez dias foi imediata.
O Barcelona conseguiu se classificar para a final da UEFA Champions League, contra o Manchester United, que será disputada no dia 27 de maio, às 15:45, no Estádio Olímpico de Roma.
Não tem como ser imparcial
Nada contra o todo-poderoso e badalado time de Sir Alex Ferguson e Cristiano Ronaldo, mas tudo a favor para a genialidade operária de Messi, Iniesta e cia.